O bar tinha um
aspecto desgastado, sujo. Os clientes se aglutinavam no balcão, pedindo alto
por bebidas com nomes estranhos, as vozes se confundiam num pedido só de
álcool. Era exaustivo. Mas extremamente útil para os problemas de insônia. E
Lizze que atendia esses clientes insaciáveis. Sua manhã era igualmente
cansativa, trabalhando como garçonete em um restaurante.
Um homem estava
no bar, há horas. Um tipo magro, carrancudo, que permanecia em silêncio e com a
cabeça baixa na maior parte do tempo. A conversa e a pretensa alegria do lugar
– a alegria decadente das pessoas já tortas – não o afetaram, e ele continuou
quase imóvel durante todo o tempo.
-Ah, você está
falando de Arnie, querida? Não se preocupe com ele, Lizzie, Provavelmente
perdeu a noção de tempo novamente. Se você precisa ir embora, leve a conta que
ele assina.
Uma música
antiga e cafona toca ao fundo, e o bar está completamente vazio. Arnie levanta
a cabeça lentamente e encara a garçonete desorientado e surpreso, quando ela se
aproxima. Uma aliança grossa esmaga seus dedos.
Ela empurra a conta para ele, ele pede uma caneta e assina.
“Eu não te
reconheço. Você é nova por aqui?”
“Sim, comecei há
algumas noites.”
Arnie a olha
curioso. Pergunta seu nome e diz que não irá aparecer mais por ali. Essa é a
sua última noite de bebedeira. Despede-se incerto, depois de deixar a gorjeta e
prometer um cheque para o dono do bar.
Um policial
uniformizado caminha pela via ensolarada. Entra no restaurante do final da rua.
Armas, algemas, rádio transmissor, tudo pendurado no cinto. Arnie vira-se e
cumprimenta a garçonete atrás do balcão. Dá um sorriso.
“Você tem uma irmã gêmea?”
“Não”, responde
Lizzie. “Bem que eu queria”
“Sério? Estou
feliz por não ter um irmão gêmeo. Basta um de mim.”
Arnie olha
constrangido, quase pedindo desculpas por perturbá-la. Pede uma salada e
frango. Empanado.
“Por que
trabalha tanto?”
“Estou
economizando para um carro.”
Lizzie não sabe
aonde quer ir, não tem nenhum destino específico em mente. Ir a vários lugares,
até não ter mais lugar nenhum para ir. Ele acena em concordância. Parece saber
o que ela quer dizer. Gorjeta.
À noite, Arnie
está novamente no bar. No mesmo lugar, ainda de cabeça baixa, mas cumprimenta
Lizzie. Celebrando sua última noite de bebedeira. Novamente. Uma mulher
atravessa o bar, de vestido preto e andar decidido. Arnie parece surpreso. Ela
o ignora e passa por ele até Travis, o Dino do local, que percebe sua presença
com um ar de reprovação.
“Travis, como
vai?”
“Sempre um
prazer, Sue Lynne”
“Sempre me diz
isso e ainda não sei o que quer dizer. Só vim usar o banheiro.”
Ele faz um gesto
com a mão, mostrando que a passagem para ela está livre. Ela passa por ele satisfeita, enquanto Arnie
abaixa mais a cabeça, no seu lugar. Ele a confronta, quando ela passa por ele.
Ela o ignora. Do lado de fora, na rua escura, um carro estacionado comporta um
cowboy. Um homem jovem de jeans e chapéu. Sue Lynne o abraça e o beija.
No balcão,
fichas caem na madeira. Chegam a uma dezena. Brancas e coloridas. Caíram das
mãos de Arnie. Ele encara Lizzie com um olhar triste.
“Se eu já pensei
em parar?” repete ele. “No grupo aonde eu vou algumas vezes, eles tem esse
sistema. Depois de uma reunião, eles te dão uma ficha branca, que simboliza
suas intenções de ficar sóbrio. Mas, quando você falha,você pega uma colorida.”
Ele encara
decepcionado o colorido da mesa. Sua mão sobe até o rosto, num gesto próximo ao
desespero. Mas ele está só triste.
“Eu sou o rei
das fichas brancas”
Ele se levanta
desequilibrado, e a porta bate.
Arcade
Restaurante. Lizzie escreve pensativa, enquanto formigas caminham pelos restos
de torta.
“Escrevendo para
o namorado?”, pergunta Arnie, enquanto se aproxima.
“Para um amigo”
“Por que não
usar o telefone?”
“Algumas coisas
são melhores quando escritas”
No balcão do
bar, Arnie se esforça para escrever algo.
Um copo se estende na sua frente. Uma carta para a esposa pode mudar as
coisas, ele diz. O cowboy entra no bar, enquanto Arnie amassa o papel. Ele
avança em cima do rapaz. O cowboy cai, mas Arnie continua batendo, de pé.
Chutes. Taco de sinuca. Pessoas gritam, o bar está vermelho, tudo está borrado.
Lizzie encara a cena confusa. Travis corre para segurá-lo. Seu corpo robusto
não é o suficiente para conter a raiva do policial embriagado. Uma ambulância
chega, o cowboy sai carregado.
Uma mesa cheia –
entupida –de papeis suporta um telefone antigo. O telefone está na mão de um
jovem que age de forma desnorteada e desesperada. Ele não ouve bem, tem muito
barulho do outro lado da linha. A pessoa também não entende direito. Ele tapa o
ouvido com o dedo, para ouvir melhor, repete várias vezes a mesma coisa. Mas
ninguém sabe de nenhuma Elizabeth. Ninguém ouviu falar dela naquele bar, ela
não trabalha lá. Não é aquele Menphis Bar and Grill que ela trabalha. Deve ter
uns 19 na lista. Outra ligação. Elizabeth atende. O homem se empolga, agradece
pelo cartão, diz que achou ótimo ela se lembrar dele, diz que teve que ligar
para mais de 10 Menphis Bar and Grill - haha. Mas não é a Elizabeth certa. Ele
se desculpa. Desculpas, obrigada por ouvir.
Sue Lynne entra
no bar, desesperada. Insana. Ele realmente podia ter matado o cowboy. Arnie
tenta fazer a discussão acabar em um abraço. Sue quer ir, só quer ser livre.
Eles não estão mais casados! Não estão. Mas Arnie não entende. Ela caminha para
a porta, ele saca a arma. Vai matá-la se ela sair. Ela não liga. Está acabado. A
porta bate. Ele não se move. Não atira. A
música deixa de ser cafona e passa a ser triste, só triste. Arnie deixa uma
gorjeta alta demais e a porta bate. Mai uma vez.
Um carro chocado
contra o poste. Policiais falando em rádios, muitos policiais. E a chuva caindo
em cima de tudo.
Sue Lynne está
no bar, de cabeça baixa. É a primeira bebida dela em seis anos.
“Vamos beber em
homenagem ao Arnie!”
Ninguém
responde. Ela continua bebendo. Seu rosto quase encosta no balcão. Quanfo
finalmente encosta, ela fecha os olhos.
Lizzie entrega uma conta para ela, a do Arnie. Travis mandou. Ela
deveria pagar.
“Isso é a conta
do Arnie, Travis! Não minha! Ele está morto! Se você quer dinheiro, fale com o
advogado,não comigo! Eu te odeio, Travis!”
Descontrole.
Tristeza. Vá atrás dela e faça-a chegar bem em casa, é o que Travis quer. Lizzie
segue Sue Lynne até a rua. A história deles termina onde começou. Onde ele
morreu, foi onde ele a conheceu. Onde a parou, com sua viatura. Onde se
apaixonou. Ela só queria ser deixada em paz. Agora sente a maior dor do mundo.
Ele sentia a maior dor do mundo, e ninguém sabe se está em paz.
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