terça-feira, 23 de abril de 2013

Narração cena a cena – Um beijo roubado



O bar tinha um aspecto desgastado, sujo. Os clientes se aglutinavam no balcão, pedindo alto por bebidas com nomes estranhos, as vozes se confundiam num pedido só de álcool. Era exaustivo. Mas extremamente útil para os problemas de insônia. E Lizze que atendia esses clientes insaciáveis. Sua manhã era igualmente cansativa, trabalhando como garçonete em um restaurante.
Um homem estava no bar, há horas. Um tipo magro, carrancudo, que permanecia em silêncio e com a cabeça baixa na maior parte do tempo. A conversa e a pretensa alegria do lugar – a alegria decadente das pessoas já tortas – não o afetaram, e ele continuou quase imóvel durante todo o tempo.
-Ah, você está falando de Arnie, querida? Não se preocupe com ele, Lizzie, Provavelmente perdeu a noção de tempo novamente. Se você precisa ir embora, leve a conta que ele assina.
Uma música antiga e cafona toca ao fundo, e o bar está completamente vazio. Arnie levanta a cabeça lentamente e encara a garçonete desorientado e surpreso, quando ela se aproxima. Uma aliança grossa esmaga seus dedos.  Ela empurra a conta para ele, ele pede uma caneta e assina.
“Eu não te reconheço. Você é nova por aqui?”
“Sim, comecei há algumas noites.”
Arnie a olha curioso. Pergunta seu nome e diz que não irá aparecer mais por ali. Essa é a sua última noite de bebedeira. Despede-se incerto, depois de deixar a gorjeta e prometer um cheque para o dono do bar.
Um policial uniformizado caminha pela via ensolarada. Entra no restaurante do final da rua. Armas, algemas, rádio transmissor, tudo pendurado no cinto. Arnie vira-se e cumprimenta a garçonete atrás do balcão. Dá um sorriso.
 “Você tem uma irmã gêmea?”
“Não”, responde Lizzie. “Bem que eu queria”
“Sério? Estou feliz por não ter um irmão gêmeo. Basta um de mim.”
Arnie olha constrangido, quase pedindo desculpas por perturbá-la. Pede uma salada e frango. Empanado.
“Por que trabalha tanto?”
“Estou economizando para um carro.”
Lizzie não sabe aonde quer ir, não tem nenhum destino específico em mente. Ir a vários lugares, até não ter mais lugar nenhum para ir. Ele acena em concordância. Parece saber o que ela quer dizer. Gorjeta.
À noite, Arnie está novamente no bar. No mesmo lugar, ainda de cabeça baixa, mas cumprimenta Lizzie. Celebrando sua última noite de bebedeira. Novamente. Uma mulher atravessa o bar, de vestido preto e andar decidido. Arnie parece surpreso. Ela o ignora e passa por ele até Travis, o Dino do local, que percebe sua presença com um ar de reprovação.
“Travis, como vai?”
“Sempre um prazer, Sue Lynne”
“Sempre me diz isso e ainda não sei o que quer dizer. Só vim usar o banheiro.”
Ele faz um gesto com a mão, mostrando que a passagem para ela está livre.  Ela passa por ele satisfeita, enquanto Arnie abaixa mais a cabeça, no seu lugar. Ele a confronta, quando ela passa por ele. Ela o ignora. Do lado de fora, na rua escura, um carro estacionado comporta um cowboy. Um homem jovem de jeans e chapéu. Sue Lynne o abraça e o beija.
No balcão, fichas caem na madeira. Chegam a uma dezena. Brancas e coloridas. Caíram das mãos de Arnie. Ele encara Lizzie com um olhar triste.
“Se eu já pensei em parar?” repete ele. “No grupo aonde eu vou algumas vezes, eles tem esse sistema. Depois de uma reunião, eles te dão uma ficha branca, que simboliza suas intenções de ficar sóbrio. Mas, quando você falha,você pega uma colorida.”
Ele encara decepcionado o colorido da mesa. Sua mão sobe até o rosto, num gesto próximo ao desespero. Mas ele está só triste.
“Eu sou o rei das fichas brancas”
Ele se levanta desequilibrado, e a porta bate.
Arcade Restaurante. Lizzie escreve pensativa, enquanto formigas caminham pelos restos de torta.
“Escrevendo para o namorado?”, pergunta Arnie, enquanto se aproxima.
“Para um amigo”
“Por que não usar o telefone?”
“Algumas coisas são melhores quando escritas”
No balcão do bar, Arnie se esforça para escrever algo.  Um copo se estende na sua frente. Uma carta para a esposa pode mudar as coisas, ele diz. O cowboy entra no bar, enquanto Arnie amassa o papel. Ele avança em cima do rapaz. O cowboy cai, mas Arnie continua batendo, de pé. Chutes. Taco de sinuca. Pessoas gritam, o bar está vermelho, tudo está borrado. Lizzie encara a cena confusa. Travis corre para segurá-lo. Seu corpo robusto não é o suficiente para conter a raiva do policial embriagado. Uma ambulância chega, o cowboy sai carregado.
Uma mesa cheia – entupida –de papeis suporta um telefone antigo. O telefone está na mão de um jovem que age de forma desnorteada e desesperada. Ele não ouve bem, tem muito barulho do outro lado da linha. A pessoa também não entende direito. Ele tapa o ouvido com o dedo, para ouvir melhor, repete várias vezes a mesma coisa. Mas ninguém sabe de nenhuma Elizabeth. Ninguém ouviu falar dela naquele bar, ela não trabalha lá. Não é aquele Menphis Bar and Grill que ela trabalha. Deve ter uns 19 na lista. Outra ligação. Elizabeth atende. O homem se empolga, agradece pelo cartão, diz que achou ótimo ela se lembrar dele, diz que teve que ligar para mais de 10 Menphis Bar and Grill - haha. Mas não é a Elizabeth certa. Ele se desculpa. Desculpas, obrigada por ouvir.
Sue Lynne entra no bar, desesperada. Insana. Ele realmente podia ter matado o cowboy. Arnie tenta fazer a discussão acabar em um abraço. Sue quer ir, só quer ser livre. Eles não estão mais casados! Não estão. Mas Arnie não entende. Ela caminha para a porta, ele saca a arma. Vai matá-la se ela sair. Ela não liga. Está acabado. A porta bate. Ele não se move. Não atira.  A música deixa de ser cafona e passa a ser triste, só triste. Arnie deixa uma gorjeta alta demais e a porta bate. Mai uma vez.
Um carro chocado contra o poste. Policiais falando em rádios, muitos policiais. E a chuva caindo em cima de tudo.
Sue Lynne está no bar, de cabeça baixa. É a primeira bebida dela em seis anos.
“Vamos beber em homenagem ao Arnie!”
Ninguém responde. Ela continua bebendo. Seu rosto quase encosta no balcão. Quanfo finalmente encosta, ela fecha os olhos.  Lizzie entrega uma conta para ela, a do Arnie. Travis mandou. Ela deveria pagar.
“Isso é a conta do Arnie, Travis! Não minha! Ele está morto! Se você quer dinheiro, fale com o advogado,não comigo! Eu te odeio, Travis!”
Descontrole. Tristeza. Vá atrás dela e faça-a chegar bem em casa, é o que Travis quer. Lizzie segue Sue Lynne até a rua. A história deles termina onde começou. Onde ele morreu, foi onde ele a conheceu. Onde a parou, com sua viatura. Onde se apaixonou. Ela só queria ser deixada em paz. Agora sente a maior dor do mundo. Ele sentia a maior dor do mundo, e ninguém sabe se está em paz.  

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